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Palácio Nacional da Pena

Num domingo quente a convidar uma ida à praia , eis que o programa que nos chama é outro. Trocamos o calor pela frescura do Parque da Pena e rumamos ao Palácio.

 Entre todas as personalidades que respiraram os ares de Sintra, uma houve que mudou o curso da História daquela vila: D. Fernando de Saxe Coburg-Gotha, príncipe da Baviera que casou com D. Maria II de Portugal, em 1836. Este homem, de vastíssima cultura e sensibilidade refinada adquiriu as ruínas do Mosteiro Jerónimo de Nossa Senhora da Pena e iniciou a sua adaptação a palacete. Edificado nos picos da serra, a 500 m de altitude, o Palácio Nacional da Pena remonta a 1839. 

Para dirigir as obras, D. Fernando chamou o Barão de Eschwege, que se inspirou nos palácios da Baviera para construir este notável edifício, cujas obras se arrastaram-se por 47 anos.  Extremamente fantasiosa, a arquitectura da Pena utiliza os "motivos" mouriscos, góticos e manuelinos, mas também o espírito Wagneriano dos castelos Schinkel do centro da Europa. 


Situado a 4,5 Km do centro histórico da vila de Sintra, o Palácio Nacional da Pena constitui o mais completo e notável exemplar de arquitectura portuguesa do Movimento Romântico em Portugal. Reabilita em si inúmeras expressões de antigas civilizações, cristalizando em cada elemento da sua decoração formas mítico-mágicas, pormenores vegetalistas e animalistas.

Traçando um percurso pelo seu interior, várias são as dependências (26 no total) nuamente decoradas segundo o sabor e o colorido românticos, onde se contemplam quase todos os materiais e estilos decorativos conhecidos, que nos levam a reviver esse tempo passado. A Pena apresenta, pois, uma atitude vanguardista e inovadora no modo como concilia e recupera os valores arquitectónicos nacionais de diferentes épocas.
Depois de reerguido o que restou do antigo mosteiro hieronimita, com o seu claustro de dois pisos e com as paredes revestidas a azulejos, que datam desde o século XVI até ao século XIX, uma nova estrutura arquitectónica revivalista foi emergindo. Revivalista no sentido em que nela encontramos elementos característicos de variadas antigas civilizações: Egípcia (elementos animalistas e vegetalistas, assim como no remate das cimalhas e das colunas torsas, onde assenta o arco do balcão da grande varanda). Árabe (os minaretes, diversos arcos trilobados, elementos decorativos e escrita árabe que surgem dispersos).



 Guarita - Minarete com cúpula mourisca
Podemos falar ainda em revivalismo na medida em que procurou igualmente, nas diversas épocas da história da civilização ocidental, matéria para a sua concepção; assim, o gosto pelo medievalismo está patente, quer no claustro e no fecho das suas abóbadas (que lembram os medalhões das antigas catedrais góticas), quer ainda no torreão (a “porta-férrea” da entrada), no passeio da ronda e nos diversos tipos de guaritas. O Renascimento surge reabilitado na utilização de vários e característicos elementos decorativos da época, tais como os bicos das guaritas da “porta-férrea”, os vários cunhais das bolas e a manutenção (e integração) do magnífico retábulo em alabastro e mármore da Capela (século XVI), a abundância de elementos mítico-mágicos, a janela “em negativo”, copiada da janela do Capítulo do Convento de Tomar, bem como todo o cordilhame do neo-manuelino.
 Tristão -
pórtico alegórico da criação do mundo.
Figura meio homem meio peixe

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É do “Terraço da Rainha” que melhor se pode observar e compreender a disposição do novo espaço arquitectónico, constituído por uma série de terraços desnivelados, escadas em caracol, diversas guaritas, arcos, passadiços e corredores, que nos dão acesso às inúmeras dependências que se espalham, acidental e assimetricamente, segundo o ideal romântico.

Estamos perante uma das raras casas reais portuguesas que ainda hoje mantém intacto todo o seu espólio, mobiliário e adereços originais.


Grande figura do panorama cultural alemão e universal, Richard Strauss, ao visitar aquele palácio, deixou bem registada a sua perplexidade e admiração: «Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto, e nunca vi nada, nada, que valha a Pena. É a coisa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro jardim de Klingsor - e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal.»





Com a morte de D. Maria II em 1853, assume a regência D. Fernando, até à maioridade do príncipe D. Pedro, mais tarde Pedro V. É então que o Rei-Artista passa a refugiar-se, sempre que possível, na sua Quinta da Pena, preferindo Sintra a qualquer outro local português.
A importância de D. Fernando em relação a Sintra não se cinge, apenas, à construção do Palácio da Pena. Ele é também o principal responsável pela mudança de mentalidades, pela introdução de novos gostos e novas tendências, novos sentidos estéticos na paisagem e nos homens. Com D. Fernando, Sintra iniciou mais um período áureo da sua História e transformou-se, definitivamente, num verdadeiro santuário romântico e destino turístico privilegiado.



O homem romântico, contemporâneo da Revolução Industrial, assistiu à transição gradual de uma civilização rural para um estilo de vida fundamentalmente urbano, o qual entrou em acelerada decadência devido à forte concentração populacional e à destruição do meio ambiental. Procurando fugir do ambiente asfixiante da vida urbana, era no reencontro com a Natureza que o homem romântico encontrava a sua alternativa de vida.

Parafraseando J. Almeida Flôr, facilmente compreendemos no que consiste, na sua essência, o Ideal Romântico, ideal este que se reflecte em todas as atitudes da Vivência Romântica: «O cenário romântico por excelência é o da Natureza em liberdade, sobretudo naquilo que ela tem de acidental, assimétrico, incompleto e imperfeito e naquilo que ela simboliza de vitória da espontaneidade sobre a reflexão, do caos criador sobre a ordem rígida do arrebatamento dionisíaco sobre o equilíbrio apolíneo.»


Sintra, enaltecida por vários autores e peregrinos estrangeiros (Byron, Beckford e Hans C. Andersen, entre outros), significava a possibilidade de concretizar esse sonho romântico. D. Fernando II assim o entendeu, criando uma verdadeira paisagem à dimensão da imaginação romântica, donde sobressai o recorte majestoso e sereno do Palácio da Pena, a coroar a Serra de Sintra.

Sintra ainda é, como a considerou Robert Southey nos finais do século XVIII, «o mais abençoado lugar de todo o globo habitável».

 In "Sintra Património da Humanidade


E para conhecer melhor este período da nossa História há um livro que aguarda leitura. O convite para visitar o Palácio lança o mote para a a minha próxima leitura:
 






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